Aviso de Conteúdo — Violência Gráfica.:
O cheiro de ferrugem e amônia engolia qualquer oxigênio no porão. Nada do plástico impecável ou da assepsia gélida que os noticiários tanto alardeavam sobre o tal Açougueiro. Apenas telas grotescas de carne pendurada nas paredes e o caos espesso grudando na sola dos sapatos e um frio que corroía a alma.
A primeira martelada não foi um ataque, foi uma pincelada.
— Assimetria — sussurrou a voz na penumbra, maravilhada com a própria obra, uma fração de segundo antes do ferro cego esmigalhar as falanges da mão esquerda de Arthur.
O grito que rasgou a garganta da presa não tinha forma; era puro instinto, um urro sufocado pelo pânico. Ele tentou rastejar para trás, mas as correntes morderam seus pulsos esfolados.
— O vermelho não mente, Açougueiro. Ele escorre livre, borrando a sua ordem patética. — O homem emergiu das sombras. Não usava luvas cirúrgicas, mas um avental de couro enrijecido, a paleta suja de sua loucura. Ele ergueu um alicate industrial, pesado e incrustado. — Você acha que o seu código o eleva? Que embalar pedaços simétricos no fundo do mar é fazer arte? Você é um burocrata da morte. Um covarde!
— Eu… não… — Arthur engasgou, a dor turvando sua visão, o suor frio misturando-se às lágrimas. — Não sou… eu não sou ele!
Um riso áspero, extasiado pela sinfonia do desespero, ecoou pelo cimento das paredes daquele porão. O alicate fechou sobre a orelha de Arthur, rasgando a cartilagem num som nauseante.
— Liberte-se da sua simetria! — rugiu o artista, puxando a ferramenta em um solavanco brutal. O sangue jorrou, quente e imediato, respingando no ombro da camisa rasgada. — A verdadeira arte exige o rasgo, a falha, o erro orgânico! O seu rito limpo é uma fraude!
A dor obliterou qualquer resquício de racionalidade. O artista ergueu o martelo mais uma vez, desenhando um arco letal no ar rarefeito.
— Ajoelhe-se na sujeira que você tanto teme — decretou, admirando o ângulo de sua próxima investida.
O ferro desceu para esmagar o joelho de Arthur. O estalo seco do osso partindo foi a assinatura perfeita no canto inferior da tela.
A dor não foi um pico; foi uma explosão que obliterou a mente. O mundo de Arthur reduziu-se a um clarão branco e insuportável. Não havia mais pensamentos ou identidade. Quando a visão turvou para um cinza sujo, ele viu o “artista” se inclinar, o rosto iluminado por uma satisfação febril. O homem aproximou o rosto, fungando perto do pescoço de Arthur, saboreando o cheiro do medo puro antes da próxima pincelada.
Então, a vida bradou mais alto.
Com um rugido que rasgou o resto de suas cordas vocais e quebrou os pulsos amarrados ao chão, Arthur jogou o peso do corpo para a frente, usando o próprio crânio como bala. A testa colidiu contra o nariz do carrasco com um som úmido de cartilagem quebrando — uma sinfonia de caos orgânico. O homem cambaleou para trás, surpreso, largando o martelo no cimento e cobrindo o rosto com as mãos enquanto o sangue jorrava por entre seus dedos.
Foi a única chance. Arthur não se levantou; era impossível. Arrastou-se como um verme, usando os cotovelos e a única perna sã para se impulsionar pela sujeira. Cada movimento era uma tortura, o joelho quebrado gritando protestos silenciados pela pura adrenalina. A escuridão do porão parecia um labirinto projetado para devorar a sanidade. Atrás dele, o urro do “artista” perdeu qualquer vestígio de liturgia. Restava apenas o rosnado gutural de uma fera ferida, o som de botas pesadas esmagando as poças estagnadas no chão, abandonando a estética pela vingança pura.
Arthur não olhou para trás. Seus dedos, ainda sendo sentidos por um tendão heroico, escorregadios pelo próprio sangue, encontravam ranhuras no piso, puxando seu corpo fragmentado polegada por polegada. Joelho destroçado deixava um rastro espesso, uma pincelada vermelha e grotesca que ironicamente servia de rubrica à obra de seu algoz.
Foi o cheiro que o salvou. Um sopro fraco, carregando o aroma de terra úmida e folhas molhadas, infiltrando-se por uma fresta rente ao teto de alvenaria. Uma pequena janela basculante, com o vidro quebrado com grade enferrujada, semiaberta para a noite. A promessa irrefutável de um mundo além do abatedouro.
Um estrondo metálico estourou a poucos metros. O carrasco havia tropeçado nas próprias correntes.
Com um impulso primitivo, Arthur agarrou o cano de escoamento que subia pela parede. Os músculos gritaram, as falanges esmigalhadas arderam como ferro em brasa, mas ele se içou. A dor deixou de ser um obstáculo e tornou-se combustível. Ele enfiou a cabeça e os ombros pela abertura estreita, o metal corroído rasgando sua camisa e esfolando suas costelas.
Então, a mão fria e rígida do assassino fechou-se como um torno em torno de seu tornozelo são.
— Você é a minha obra! — a voz ecoou do poço de trevas, distorcida pela loucura. — O vermelho não foge da tela!
Arthur não raciocinou. Com a perna despedaçada, movido por uma repulsa abissal, ele chutou. O seu osso partido estalou, a agonia rasgou sua alma em um clarão mudo, mas o calcanhar encontrou o rosto da criatura uma última vez no escuro. O aperto afrouxou por uma fração de segundo. Foi o mal necessário.
Ele se jogou para a frente, despencando do outro lado.
O impacto contra a grama enlameada arrancou o resto de ar de seus pulmões. O silêncio da madrugada lá fora era ensurdecedor. A brisa gélida cortou seu rosto febril. Arthur rolou de costas, ofegante, o peito subindo e descendo em espasmos irregulares, os olhos arregalados para o céu salpicado de estrelas indiferentes.
Ele olhou para a própria mão arruinada, para as roupas ensopadas em escarlate. Havia escapado. Havia sobrevivido ao devoto do caos. Mas, enquanto sua respiração se acalmava na grama úmida, Arthur percebeu a verdadeira e implacável crueldade do terror: a noite fresca não limpava sua alma. Ele nunca mais seria o mesmo. A obra de arte do psicopata estava concluída e, a partir daquela noite, ela caminharia pelo mundo.
Escarlate se passa em Payan. Os outros contos do mesmo mundo estão em Contos Payani, e o índice completo, no Acervo.


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