Carta I

Carta I

Do maço encontrado. Fólio 1. A linha do remetente foi raspada até o papel ceder; o buraco tem o tamanho de duas palavras. O copista anotou na margem: “assim veio às minhas mãos, e assim entrego.”


▬▬▬▬▬▬▬, servo, ao menino que ainda não foi concebido: graça e paz.

Estou escrevendo de um quarto que já foi chamado apenas de caverna. Nós renomeamos porque dizer que moramos em uma caverna parece retrógrado demais. Depois de tudo que aconteceu… bem, este lugar é quente o bastante para um homem morar e frio o bastante para o mofo não pegar, e eu não sabia que essas duas medidas podiam ser a mesma.

A última lanterna do nosso bando está acabando a bateria. Disseram que é por um bem maior. Eu acredito neles… e é isso que mais me assusta.

Não sei teu nome. Vou te dar um, porque preciso, e me perdoe a ousadia de um velho que já não tem mais o que perder além do que já o foi tirado. Não dá para orar por pronome, como “tu”, “ele”. Eu tentei. Tentei muitas noites, e a boca para e se recusa, o que sobe não é oração, é vontade. Então tu és Leonardo para mim. Se te puserem outro nome — e vão pôr, e vai ser um nome de outro tipo de gente, vai estar num papel com número —, tudo bem. Deus, O Verdadeiro, sabe de quem eu estou falando.

E dou um nome também a quem te levar isto, porque uma carta sem carregador é papel, sem alguém ela não anda. Chamo-o Canção. Ele vai entender por quê, ou não vai, e não importa.

Escrevo hoje, dia dezenove, do ano — e aqui a minha mão para. Porque eu ia escrever o ano e percebi que não sei mais qual é. Eles trocaram a contagem faz tempo, e eu me recusei a aprender a nova, e essa recusa que eu achava valentia hoje me deixa sem saber que dia é. Escrevo, então, no ano em que eu ainda estava vivo. É a datação mais honesta que eu tenho, e olha que eu fui homem de anotar tudo.

[Margem, outra tinta: “Fólio 1 datado pelo copista: Era Real 7. O autor escreve dezenove; o mês não consta.”]

Sobre o fim, eu te digo duas coisas, e são duas que eu ainda assino.

A primeira: a datação do fim só pertence ao Pai. Ninguém sabe o dia, nem a hora, nem os anjos, nem o Filho. Desconfia de quem marcar. Desconfie principalmente de quem marcar com carinho, com a Escritura aberta e a voz mansa, porque foi assim que marcaram para nós — e foi gente boa, e eu estava junto, e eu ajudei a contar os dias com o dedo no papel.

A segunda, e digo com certeza assustadora: este tempo já começou.

Não vou te explicar como as duas coisas cabem juntas. Não cabem. Eu convivi trinta anos com elas dentro da mesma cabeça e não couberam nunca, e mesmo assim as duas são verdade, e é possível viver assim, e é isso que eu tenho para te ensinar. O resto é enfeite.

Entrou agora com café passado. Isso é o maior investimento que já me consentiram… se bem que essa xícara de café e a lanterna… devo estar fazendo algo grande. Tu não sabes o quanto suamos para pegar esse meio quilo de café comum.

Perguntou para quem eu escrevia. Eu disse que ainda não sabia. Ela disse que o Senhor sabe, e disse com certeza, uma daquele tipo que só a fé provém. Esse tipo de gente só tem fé agora; depois, eu não sei — e talvez eu esteja falando de mim. Eu pedi licença para continuar. Ela deu, e saiu, e a cortina ficou se mexendo um tempo depois de ela já ter ido.

Eu era, na época, conhecedor de uma pouca parte das verdades eternas. Uma pouca parte. Escrevo isso e me dá vontade de rir, e a vontade de rir num homem da minha idade é quase sempre o começo de outra coisa. Eu sabia pouco e falava muito, e as duas coisas juntas fazem um homem perigoso para os que o amam.

Vais querer saber o que eu vi.

Eu vi sete luzes se apagarem, uma depois da outra, e de cada uma eu sei o nome de quem estava segurando, e não vou escrever aqui, não neste fólio, não com o teu nome na mesma folha. Vais receber os nomes depois, se Deus quiser e o Canção durar. Um deles é de uma mulher que morreu numa fila esperando um remédio que nem era dela. Guarda essa, que é a primeira, e é a que eu conto melhor, e é a que eu ainda não consegui entender.

Eu não te prometo um desenho completo. Te prometo um punhado de fatos, mal arrumados, alguns errados, todos meus.

Serve para que tu consigas permanecer depois de mim.

Não é para que tu saibas. Já que saber é barato e não segura ninguém em pé. É para que tu permaneças — que é uma palavra feia, sem brilho nenhum, mas é a única que eu ainda garanto. Eu combati o bom combate. Guardei a fé, espero; a do meio eu não posso dizer, e não é modéstia: é que a carreira ainda não acabou. Não acabou para mim, e quando estas folhas chegarem — se chegarem, e é grande o “se” — não vai ter acabado para ti.

Então escreve na parede, com o que tu tiver, prego, unha, carvão: não acabou. Ainda que tarde, espera por ela.

Se o Canção ainda conseguir carregar, além destes papéis, uma coisa que não pesa quase nada, pede a ele o candeeiro. É de latão, é feio, tem uma amassadura de um lado que foi a Nadir que fez e nunca admitiu. Não é relíquia, não beija, não guarda em pano. Usa. E se te disserem que já não se acha o óleo — e vão te dizer, eles dizem tudo com muita educação, eles pedem desculpas pelo transtorno —, procura assim mesmo. O meu está acabando enquanto eu escrevo esta linha e eu não tenho onde comprar mais, e é por isso que esta carta vai ser curta, e não por elegância.

Uma última coisa, que eu não sei onde encaixar, e por isso vai chegar aqui no fim.

Tem uma frase que me acompanha desde aquele fevereiro e eu nunca soube de onde ela veio. Não sei se eu ouvi, se eu li numa parede, se eu mesmo disse e depois esqueci que tinha dito. Ela chega inteira, sempre igual, sempre no meio de outra coisa:

nunca foi sobre nós

Eu já reparei que ela nunca chega quando eu estou com medo. Chega quando eu estou tranquilo. Anota isso e não faz nada com a anotação.

Que a luz que nunca se apaga te ache acordado. E se te achar dormindo, guri, que Ele te sacuda com misericórdia, e não como sacudiu a mim.

Ainda que tarde.


Luzeiros no Fim do Mundo · Volume I — A Promessa de um Deus Próximo · Prólogo, Carta I.
O Capítulo 1, “O Desfile”, vem em seguida. Índice completo no Acervo.


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