Não tirem os olhos do Alvo

Não tirem os olhos do Alvo

A fogueira

Era noite, e fazia frio. No meio do pátio do sumo sacerdote, acenderam uma fogueira, e Pedro se sentou ali, entre os servos, esquentando as mãos (Lc 22,55; Jo 18,18).

Lá dentro, Jesus estava sendo julgado. Aqui fora, Pedro só queria se aquecer.

Uma criada olhou para ele contra a luz do fogo e disse: “Este também estava com ele”. Pedro negou. Pouco depois, outro insistiu. Uma hora mais tarde, um terceiro. E Pedro, que tinha dito que estava pronto para ir com Jesus até a morte, respondeu que nem sabia do que estavam falando.

O galo cantou.

E então vem um dos versículos mais assustadores e mais bonitos da Bíblia inteira: “Voltando-se o Senhor, fixou os olhos em Pedro” (Lc 22,61).

Guarde essa cena. Eu volto nela.

Antes, quero falar da fogueira. Porque aquela fogueira não era só fogo. Era gente. Era multidão.

O que toda multidão pede

Toda multidão pede duas coisas: alguém que vá na frente e alguém para culpar.

Um herói e um vilão. Um salvador e um inimigo. Já escrevi isso de outro jeito, e continuo achando verdade: em tempos difíceis temos heróis e vilões; em tempos sóbrios, pessoas.

Não sou só eu que acho. Em 1921, Freud escreveu um livro sobre a psicologia das massas e escolheu dois exemplos: a Igreja e o Exército. Os dois, segundo ele, se sustentam pela ilusão de um líder que ama todos por igual. E esse amor tem um avesso: a dureza com quem está fora. Freud chegou a dizer que até a religião que se chama de religião do amor é cruel com quem não pertence a ela.

Dói ouvir isso. Mas, infelizmente, não é algo inventado.

Uns trinta anos depois, o psicanalista Wilfred Bion deu nome ao que via se repetir nos grupos com que trabalhava. Quando um grupo foge da sua tarefa real, ele passa a agir como se existisse por um de dois motivos: ser sustentado por um líder (a dependência) ou lutar contra um inimigo, ou fugir dele (a luta-fuga). E as duas instituições que Bion ligou a essas tendências foram, de novo, a Igreja e o Exército.

A psicologia social mais recente corrigiu um ponto importante. Na multidão, ninguém perde a razão, como se dizia no fim do século XIX. A gente troca o “eu” por um “nós”. O perigo, então, não é estar no meio de muita gente. É deixar qualquer um definir quem é o seu “nós”.

Alguém que vá adiante

A Bíblia descreveu isso muito antes de Freud.

Quando Israel pediu um rei, explicou o motivo: “o nosso rei poderá governar-nos, sair adiante de nós e fazer as nossas guerras” (1Sm 8,20). Repare: alguém que vá na frente e alguém contra quem lutar. Bion inteiro num versículo só.

E Deus disse a Samuel uma frase que eu não consigo ler sem engolir seco e áspero: “não te rejeitaram a ti, mas a mim” (1Sm 8,7).

Séculos antes, no deserto, Moisés demorou a descer do monte. O povo foi até Arão e pediu: “faze-nos deuses que vão adiante de nós”. O motivo? Ninguém sabia o que tinha acontecido com “este Moisés, o homem que nos tirou do Egito” (Êx 32,1).

Leia de novo: “o homem que nos tirou do Egito”. Não foi Moisés quem tirou ninguém do Egito. Foi Deus. Mas o povo já tinha passado a salvação de Deus para um homem. E, quando o homem sumiu, passou do homem para um bezerro de ouro. Naquele dia, uns três mil caíram (Êx 32,28).

O caminho é sempre esse. Primeiro a gente põe um homem no lugar de Deus. Depois, quando o homem falha — e ele sempre falha —, põe qualquer coisa no lugar do homem.

O salmista diz que os ídolos têm olhos e não veem, e que quem os faz fica parecido com eles (Sl 115,5.8). Eu escrevi uma vez “ídolos comem vivos seus adoradores”. Não é exagero: você vai ficando cego como aquilo que adora.

Não é homem nenhum que salva. Nem político, nem pastor, nem influenciador — nem eu. Todo homem que a gente coloca no lugar do Salvador é só o primeiro passo em direção a um bezerro.

Alguém para culpar

A segunda coisa que a multidão pede é um culpado.

Quando os doze espias voltaram de Canaã, dez falaram dos gigantes: “éramos, aos nossos próprios olhos, como gafanhotos” (Nm 13,33). Dois falaram da promessa. O povo chorou aquela noite, propôs escolher um novo capitão para voltar ao Egito e quis apedrejar justamente os dois que tinham olhado para a promessa (Nm 14,4.10).

Repare nos olhos de novo. Quem olhou para os gigantes se viu como gafanhoto. E uma multidão com medo sempre acha alguém para apedrejar.

O pensador francês René Girard passou a vida estudando isso. Quando um grupo entra em crise, as rivalidades vão se acumulando até que todos se voltam contra um só. A vítima morre ou é expulsa, a tensão descarrega, e vem uma paz. Uma temporária. O nome disso é bode expiatório, e a expressão vem da própria Bíblia (Lv 16).

O sumo sacerdote Caifás disse isso em voz alta, sem vergonha nenhuma: “convém que morra um só homem pelo povo” (Jo 11,50). E, no dia da cruz, Lucas registra um detalhe que Girard considerava revelador: Herodes e Pilatos, que eram inimigos, ficaram amigos naquele mesmo dia (Lc 23,12).

Essa é a paz que o mundo oferece. A paz do apaziguador: feita em cima de alguém.

Jeremias já tinha visto os falsos profetas fazendo isso. Curavam a ferida do povo só por cima, dizendo “paz, paz”, quando não havia paz (Jr 6,14).

O dia em que a multidão escolheu

Jesus recusou os papéis que as multidões sempre lhe oferecem.

Primeiro, recusou ser o herói. Depois da multiplicação dos pães, percebeu que o povo vinha para levá-lo à força e fazê-lo rei. Ele se retirou, sozinho, para o monte (Jo 6,15). Não aceitou ser o homem que vai na frente fazendo a guerra dos outros.

Então a multidão fez dele o vilão.

Pilatos ofereceu uma escolha: Jesus ou Barrabás. Barrabás estava preso por uma revolta na cidade e por homicídio (Lc 23,19). Em alguns manuscritos antigos de Mateus, o nome dele aparece completo: Jesus Barrabás (Mt 27,16-17). E Barrabás, muito provavelmente, quer dizer “filho do pai”.

Dois Jesus diante da multidão. Um, filho de um pai qualquer, com sangue nas mãos. O outro, o Filho do Pai. Os principais sacerdotes incitaram a multidão (Mc 15,11), e essa escolheu: o primeiro.

Jesus tinha dito: “Não vim trazer paz, mas espada” (Mt 10,34). A multidão também queria espada. Só que queria a de Barrabás, que mata o inimigo. A espada de Cristo corta outra coisa: corta a gente por dentro, até nos laços mais próximos (Mt 10,35-37). Quando Pedro puxou a espada dele no Getsêmani, Jesus mandou guardar (Jo 18,10-11).

E aqui está o paradoxo que me fez escrever este texto. O mesmo Jesus que traz espada é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6). No mesmo capítulo, Ele diz: “a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo” (Jo 14,27). Ele não é contra a paz. É contra a paz do apaziguador.

É nesse paradoxo que a gente vive e se move. E não é à toa que “nele vivemos, e nos movemos, e existimos” foi dito por Paulo justamente num discurso contra os ídolos, em Atenas (At 17,28-29).

“Não há justo, nem um sequer” (Rm 3,10). É verdade. Mas houve Um. E foi justamente esse que a multidão trocou por um homicida. O centurião que o viu morrer disse: “Verdadeiramente, este homem era justo” (Lc 23,47).

Caifás não sabia, mas, segundo João, profetizou (Jo 11,51): Jesus ia mesmo morrer pelo povo. Só que não como bode expiatório da multidão. Como o justo pelos injustos (1Pe 3,18).

Uma minoria de um

Nos anos 1950, o psicólogo Solomon Asch fez um experimento simples. Uma pessoa entrava numa sala com vários atores combinados, e todos tinham que dizer qual de três linhas tinha o mesmo tamanho de uma quarta. A resposta era óbvia. Mas os atores, um por um, davam a resposta errada.

Três em cada quatro participantes cederam à maioria pelo menos uma vez. Contra o que estavam vendo com os próprios olhos.

Aí Asch mudou uma coisa só: pôs na sala um único ator que discordava da maioria. A conformidade despencou para algo entre 5% e 10%. Um. Bastava um.

Mas tem um detalhe que me pega. Quando esse único dissidente mudava de lado no meio do experimento, os participantes voltavam a ceder como antes.

O título do estudo, publicado em 1956, poderia ser a legenda da cena diante de Pilatos: uma minoria de um contra uma maioria unânime.

É aqui que entra a carta aos Hebreus. Temos “a rodear-nos tão grande nuvem de testemunhas” (Hb 12,1), e o capítulo 11 inteiro é uma galeria de gente que disse não à maioria. Você nunca está sozinho contra a unanimidade.

O versículo seguinte manda correr “olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus” (Hb 12,2). No grego, esse “olhando” carrega a ideia de desviar os olhos de todo o resto para fixá-los num ponto só. E “Autor” é archēgos: o que vai na frente, abrindo o caminho.

Percebe? É exatamente o que o povo pedia no deserto e no tempo de Samuel: alguém que fosse adiante. A fome estava certa. O alvo é que estava errado. Só um foi na frente atravessando a morte e voltou, e a Bíblia o chama de Autor da salvação (Hb 2,10) e Autor da vida (At 3,15).

Até Carl Jung, que não escrevia como teólogo, chegou perto disso: para ele, quem não está ancorado em Deus não tem recursos próprios para resistir à pressão da massa.

Por isso Hebreus termina com um convite estranho: sair do arraial e ir até Jesus do lado de fora, levando a vergonha dele (Hb 13,13). O Alvo não fica no meio da multidão. Fica do lado de fora, onde ela deixou a vítima.

Duas fogueiras

Agora volto para o Pedro.

Ele já tinha passado por isso uma vez. Andou sobre as águas enquanto olhava para Jesus e começou a afundar no instante em que reparou na força do vento (Mt 14,30). Naquela noite no pátio, aconteceu de novo. Só que o vento era a multidão em volta do fogo.

E então: “Voltando-se o Senhor, fixou os olhos em Pedro” (Lc 22,61).

Quando Pedro tirou os olhos do Alvo, o Alvo não tirou os olhos dele.

Os ídolos têm olhos e não veem. O Alvo tem olhos, e eles procuram você.

Aquele olhar não foi um carinho. Pedro saiu dali e chorou amargamente (Lc 22,62). Foi um choque. É por isso que eu digo que Jesus não é um apaziguador: é um desfibrilador.

Mas a imagem só funciona se for precisa. O desfibrilador não serve para coração parado, em linha reta, como nos filmes. Ele serve para a fibrilação: o coração está se mexendo, tremendo, fazendo um monte de coisa, mas não bombeia sangue. O choque interrompe o caos, e o ritmo certo pode voltar.

Isso é Laodiceia. A igreja que dizia “estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma” e não sabia que era “infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu” (Ap 3,17). Ativa, ocupada, morna. E o que Jesus oferece a ela é colírio, para ungir os olhos e voltar a enxergar (Ap 3,18). Logo em seguida: “Eu repreendo e disciplino a quantos amo” (Ap 3,19).

Para quem está morto, Ele não é desfibrilador. É ressurreição (Jo 11,25; Ef 2,4-5). Mas para quem está firme, ou tentando ficar, e anda tremendo sem bombear, o choque é amor.

João conta que Pedro negou Jesus perto de um fogo de brasas (Jo 18,18). Depois da ressurreição, Jesus esperou Pedro na praia, também com um fogo de brasas (Jo 21,9). É a mesma palavra em grego, e ela só aparece nesses dois lugares do Novo Testamento. Foi ali, perto da segunda fogueira, que Jesus perguntou três vezes: “Tu me amas?” (Jo 21,15-17).

Uma fogueira para negar. Outra para voltar.

Um cuidado

Preciso ser honesto sobre um risco deste texto.

É muito fácil ler tudo isso e concluir: “a multidão são eles; os firmes somos nós”. E aí a gente faz exatamente o que Freud descreveu: um grupo que ama muito quem está dentro e é duro com quem está fora! Dessa forma, se troca de lado e continua sendo multidão.

Não queremos isto! Definitivamente não.

Eu escrevi uma vez: essa vida é uma guerra, e eu estou em ambos os lados; o que dói lá, dói aqui. Continuo achando. A multidão que gritou “crucifica-o” não é uma tribo distante. Ela mora em mim. Eu também teria esquentado as mãos naquela fogueira.

Paulo deixa claro que a nossa luta não é contra o sangue e a carne (Ef 6,12). O inimigo não é gente. Se um texto sobre fidelidade me deixa com vontade de achar culpados, eu li errado.

O Alvo não é virar a multidão certa. É sair do arraial e ficar do lado da vítima (Hb 13,13). E a vítima, lembra, era Ele.

Pedro diante da multidão

Algumas semanas depois daquela fogueira, Pedro estava de pé no pórtico de Salomão, e todo o povo correu até ele (At 3,11).

O mesmo homem que tinha se escondido no meio da multidão agora estava sozinho diante dela. Uma minoria de um. E disse: “Vós, porém, negastes o Santo e o Justo e pedistes que vos concedessem um homicida. Dessarte, matastes o Autor da vida” (At 3,14-15).

Tudo o que eu tentei dizer até aqui está nesses dois versículos. O único Justo. O homicida que a multidão preferiu. E o Autor da vida, o archēgos, o que vai na frente.

E Pedro não parou na acusação: “Arrependei-vos, pois, e convertei-vos” (At 3,19). No dia seguinte, diante das autoridades, com o mesmo Caifás que tinha dito “convém que morra um só homem” sentado ali (At 4,6), completou: “não há salvação em nenhum outro” (At 4,12).

Não é homem nenhum que salva. Não há ídolo que não leve à morte. Há um só Autor da salvação.

E os líderes, vendo a coragem daqueles homens simples, reconheceram que eles tinham estado com o Cristo (At 4,13). É isso que acontece com quem não tira os olhos do Alvo: começa a ser reconhecido por onde andou olhando.

Então, aos meus, eu peço.

Se você está afundando, olhe para Ele.

Se você está perto da fogueira errada, saiba: Ele está olhando para você.

E se você está firme, fique. Tem gente do seu lado que só está de pé porque você está.

Não tirem os olhos do Alvo!

Para ir mais fundo

Textos bíblicos, na ordem em que aparecem: Lc 22,54-62 · 1Sm 8 · Êx 32 · Sl 115 · Nm 13–14 · Lv 16 · Jo 11,47-52 · Lc 23 · Jr 6,14 · Jo 6,15 · Mt 27,15-26 · Mt 10,34-39 · Jo 18,1-27 · Jo 14 · At 17,22-31 · Rm 3,10 · 1Pe 3,18 · Hb 2,10; 11–13 · Mt 14,22-33 · Ap 3,14-22 · Jo 21,1-19 · Ef 6,12 · At 3–4. As citações seguem a Almeida Revista e Atualizada (ARA).

  • Sigmund Freud, Psicologia das massas e análise do eu (1921).
  • Wilfred R. Bion, Experiências com grupos (1961).
  • René Girard, Coisas ocultas desde a fundação do mundo (1978) e O bode expiatório (1982).
  • Solomon Asch, “Studies of independence and conformity: a minority of one against a unanimous majority”, Psychological Monographs, v. 70 (1956).
  • Carl G. Jung, Presente e futuro (1957).
  • Stephen Reicher e John Drury, pesquisas sobre identidade social em multidões (dos anos 1980 em diante).

Não tirem os olhos do Alvo — reflexão. Mais em Reflexão, e o índice completo no Acervo.


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