Ato I — O Mar
Era noite, e eu jogava o último corpo ao mar.
A escuridão já havia engolido o nosso barco, e a chuva, de forma profana, não caía — ela subia, em gotas grossas que nasciam do oceano escuro e desafiavam a gravidade, como se o abismo estivesse cuspindo de volta tudo o que tentávamos afogar.
O corpo que eu empurrava pela borda era o da nossa antiga capitã. Nós a chamávamos de esperança. Com “e” minúsculo, porque nada ali merecia a grandeza das letras maiúsculas. O cheiro dela já estava insuportável. Tivemos que descartá-la para não adoecermos do mesmo mal.
Quando a esperança finalmente tocou a água, flutuou de bruços por um segundo. A espuma negra ao redor dela se abriu em um sorriso gélido antes de tragá-la por completo.
Junto a ela, deixou-me o ar.
Como chegamos a esse ponto? Sinceramente, depois de tanto sussurramos pelos cantos, já não sabíamos nem da veracidade de nossas próprias memórias. Lembro de quando ainda era dia. Viajávamos com o sol nos cegando, calados, seguindo em frente. Não nos apavoramos de início. Todos olhávamos na mesma direção. O mar vasto, o nosso barco, equipado com motor e velas, parecíamos indestrutíveis. Naquela hora. Nós desbravávamos esta temida, amarga e maldosa imensidão sem sabermos que éramos vítimas, acreditando, na nossa patética arrogância, que fôssemos heróis.
Nós nos demos nomes pelas características físicas e pelo raso modo de agir que enxergávamos uns nos outros. Eu me autodenominei mar, mas todos acharam um tanto egocêntrico. Não discordei. Pelo meu rosto desolado e pela minha inércia crônica, acabaram me chamando de marasmo.
Acostumei-me a ele, como os outros se acostumaram às suas máscaras. Tínhamos a avareza, uma menina de língua amarga que fumava incessantemente e calculava os lucros de um porto que nunca veríamos; o mentira, que sempre tinha uma história verdadeira ou não para preencher o silêncio; a lux, como gostava de ser chamada a maior bajuladora do convés por, de acordo com ela “luxúria é longo demais”; e o mau, o imediato que assumiu quando a esperança apodreceu. mau era um homem frio, mas com ótima condução térmica para a crueldade — precisávamos pisar em peixes só para ter a coragem de olhar para ele.
Mas então, o ar morreu totalmente.
A calmaria que se seguiu foi demoníaca. O combustível secou no meio da viagem com um ronco engasgado no motor. As bússolas desmagnetizaram de uma vez, os ponteiros rodopiando em pânico antes de despencarem mortos, puxados para o chão de madeira. O rádio deu um curto e, logo depois, começou a sussurrar palavras em latim com um sotaque alemão. Eram sentenças. Não compreendíamos o idioma, mas compreendíamos a condenação.
Os ventos pararam completamente. Mas o barco, não.
Ele continuou se movendo. Cortava a água negra, quase que atraído pela mesma força invisível que havia enlouquecido.
Na sala de comando, a nossa sanidade começou a vazar pelas frestas. ava, que antes inspecionava suas rotas com fervor, começou a rasgar os papéis, berrando repetidas vezes, com a voz esganiçada, que “não existíamos nisso!”. E ela tinha razão. Eu mesmo averiguei: não havia mais coordenadas. Os mapas haviam ficado em branco. A tinta havia escorrido para fora do papel, fugindo de nós.
Sentado em minha cadeira no convés, deixei a vara de pesca cair. Notei que as tatuagens em meu braço já não eram as mesmas. As antigas âncoras brancas tinham mudado de forma, rastejando pela minha pele como se estivessem vivas, reescrevendo os meus pecados a olho nu. Ninguém pareceu notar. Assim como ninguém se pronunciou quando a nossa pesada âncora de ferro simplesmente se soltou, caiu na água e saiu nadando para o fundo, como um grande peixe metálico devolvido.
A loucura não grita; ela se instala no silêncio.
Enlevo — cujo nome verdadeiro eu já não lembrava — soltava gargalhadas engasgadas no convés, aprumando velas murchas na direção de um vento morto. No nicho dos pescados, abaixo de nós, alguém gemia. Não se sabia se de dor, de fome ou de uma aceitação doentia do fim. O último pedaço de carne, tirado de um dos nossos conservados, balançava na ponta de um anzol, inútil contra um oceano que não queria nos alimentar, apenas nos devorar.
A chuva densa, o vento que uivava apenas para um, a água doce e a salgada percorriam através de mim. Estavam me afogando de dentro para fora. Olhei para o pequeno barco a remo amarrado na lateral. O último bote. O último caixão disponível.
Eu olhei para as águas negras. E senti que o abismo olhou de volta. O barco rangeu, e o som formou palavras na minha mente exausta. Foi então que o próprio mar me perguntou, com a voz embargada de sal:
— Vai bem? Marasmo, vai bem? Como está a sua mente?
Eu fechei os olhos, desamarrando a corda do bote, preparando-me para a queda no escuro absoluto, e respondi à água:
— Invariavelmente… instável.
O Mar e o Marasmo — Ato I. Outros contos em Conto, e o índice completo no Acervo.


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